sábado, 17 de abril de 2010

Livros sobre Pedagogia

Há cerca de 2 meses requisitei numa biblioteca 3 livros. "A alegria de ensinar" e "Conversas com quem gosta de ensinar" de Rubem Alves e "Para que serve a Escola?" de Michel Lobrot.

Os dois primeiros são livrinhos de ensaios muito idealistas e muito pouco práticos. Confesso que não tive paciência para ler todos os capítulos. Fica-me a ideia da oposição entre professor e educador.
O primeiro é o profissional, preocupado em tirar o máximo rendimento do seu mister. Aquele que foi treinado para ensinar (ou que ensina sem ter tido treino) sem que isso corresponda a uma vocação ou um desejo. O segundo é aquele que antes de o ser já o era. Ou seja, o que tem incorporado na sua forma de ser e de estar a predisposição para facilitar ao outro o processo de descoberta, que é no fundo, aprender.

O terceiro livro, sobre o qual depositava mais esperanças, também me desiludiu. Para além de se concentrar exclusivamente na realidade francesa faz uma resenha histórica a meu ver demasiado extensa. Contudo, aqui ficam algumas ideias das que achei mais interessantes ou curiosas.

- Acabar com os exames: estes retiram a atenção do essencial que é ensinar e gastam energia em algo inútil. Para além disso todo o conhecimento que os estudantes revelam nos exames é etéreo pois adquirem-no com o propósito de o comprovar em exame e depois esquecem-no na sua maioria. Não concordo com a abolição dos exames porque penso que a aquisição de conteúdos e competências deve ser testada (mas também há outras formas) por forma a saber quem deve transitar para o nível de conhecimentos seguinte e quem tem de estudar mais, fazer outro trabalho,etc...
O que nunca compreendi, já que toco neste ponto, é por que é que os testes ou exames são sempre no fim de um determinado conjunto de matérias que não voltam a ser leccionadas após a avaliação. Compreendo isso no Ensino Superior mas antes não. O que acontece é que temos por exemplo 40% de negativas (o que não é raro em disciplinas como Matemática, Inglês, Português, etc...) e estes alunos que demonstram claramente não ter aprendido não têm uma segunda oportunidade. Se aprendeste, tudo bem, se não aprendeste, paciência! Claro que a alternativa seria ter uma turma a duas velocidades pois não se pode atrasar aqueles que mostraram ter apreendido os conhecimentos. E aceito que uma turma a duas velocidades possa ser impraticável com turmas de 25 alunos na maioria mal comportados e/ou completamente desinteressados.

- Acabar com os diplomas: segundo o autor, estuda-se para o diploma, para que o diploma nos garanta aquele emprego e estatuto social desejado. Argumenta que o papel das escolas de hoje é muito mais o de seleccionar do que o de formar, principalmente as Universidades (ideia que defendo desde comecei a minha licenciatura). Acabando com a emissão de diplomas seriam as empresas a fazer a selecção dos seus quadros sem ter em conta a média ou a Universidade de formação do candidato (o que já acontece). Hoje em dia, para a maioria dos licenciados, é preciso provar diariamente aquilo de que se é capaz. Por isso o diploma acaba por ser bonito para se ter lá em casa (ainda nem recebi o meu e já lá vão 4 anos e meio) mas o que conta são as capacidades que temos ou não temos. Ah...já me esquecia, e conhecimentos, claro!

- Mais exigência em relação aos alunos: esta já é nossa conhecida. É curioso como as medidas tomadas nos últimos anos vão no sentido do facilitismo, para melhorar as estatísticas. Mas, fazendo de advogado do diabo, pergunto: O que é que fazemos a um jovem que está, por exemplo, no 7º ano com 16 anos? Eu respondo. Vai para um CEF (Curso de Educação e Formação) para tirar o 9º ano. Este tipo de ensino mantém aproximadamente os conteúdos temáticos mas valoriza mais o feedback dos alunos nas aulas do que a avaliação formal. Mas acontece que este aluno continua a ter o mesmo tipo de atitude que o fez chumbar já 4 vezes. A minha questão é: vamos ser exigentes com este aluno? Ser minimamente exigente, minimamente sério, é dizer-lhe que só fará o 9º ano quando for outro tipo de pessoa e isso só acontecerá, no mínimo, daqui a dez anos.

- A influência do poder económico do cidadão nas suas oportunidades educativas: Argumenta-se que as elites, tendo maior poder económico, têm também mais acesso a suportes educativos de melhor qualidade para si e para os seus filhos. Também é verdade que com melhor educação se aumenta o poder económico. Assim, possibilitando aos seus descendentes uma educação de muito melhor qualidade do que a do resto da população as elites garantem que o continuaram a ser nas próximas gerações. É conhecido,a este propósito, que a diferença de rendimento entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres em Portugal é muito superior à dos outros países da Europa.

- A questão do desejo: a ideia é que o sistema de ensino não valoriza as vontades de aprendizagem dos estudantes. Existe aquele conjunto de saberes que é suposto transmitir e não há margem de manobra para se explorar interesses que venham dos estudantes. Não tenho muita reflexão sobre este tema mas da minha curta experiência como professor (em circunstâncias que já especifiquei em post anterior) posso dizer que das vezes que tentei fase-los falar dos seus interesses não saiu quase nada e o que saiu é demasiado triste para escrever aqui.

2 comentários:

  1. Vim aqui, em primeiro lugar, para agradecer o seu comentário no meu blogue.

    Em relação ao post com o qual me deparei, percebo as suas reflexões e partilho muitas delas.

    A ultima conclusão toca no problema central dos jovens e da sociedade em geral em Portugal. Não sabemos quem somos e muito menos para onde vamos.

    Nos jovens é tanto mais grave pois eles estão ainda a construir a sua vida. Isso não é fácil e precisa de muito esclarecimento e apoio. Algo que eles hoje não encontram em casa e, as escolas, infelizmente, também se mostram algo incapazes de responder a esses novos desafios.

    Há 20 anos atrás era mais fácil escolher. E se se adiasse a escolha nada estava perdido. Hoje, a competição é tanta e as perspectivas de futuro são tão más que é qualquer escolha errada ou desvio do percurso leva ao desastre.

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  2. Rubem Alves será um idealista, mas adoro-o. É pena que a maioria dos seus livros estejam esgotados (estão a começar a reeditá-los), mas eu tenho vários, bem como uma excelente conferência em vídeo. Sugiro que tente encontrar o "Gaiolas ou Asas". Ou escritos e conferências que se podem encontrar na net. Mas opiniões e gostos são os de cada um, claro, e respeito muito isso.

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